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Nódoa de azeite

por MC, em 30.10.15

Vivemos tempos extraordinários de desenvolvimento nas várias vertentes do conhecimento. As descobertas científicas e a evolução tecnonógica desenrolam-se a um ritmo tal que, apesar da acessibilidade e celeridade da partilha de informação, torna-se impraticável ao cidadão comum (i.e., eu), na voracidade dos dias, uma permanente e atempada actualização de conhecimentos. 

É, não é? Muito bem.

Agora que atingimos uma plataforma de entendimento acerca da fundamentação conceptual da ignorância do cidadão comum (ainda eu), alguma alma caridosa faz a fineza de me explicar o que camandro é uma "azeitona mítica"?

 

azeitona1.jpg

 

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publicado às 23:33

Família

por MC, em 29.10.15

O lusco-fusco da tarde chuvosa ampliava as sombras no gabinete. A dor de cabeça, ferrada há um bom par de horas, toldava-lhe o raciocínio e desfocava as letras, fazendo-as bailar na folha branca à sua frente. Desistiu, afastando o documento com um gesto resignado e começou a arrumar os papéis. Um suave bater na porta interrompeu a enumeração mental das tarefas por concluir.

A rapariguita entreabriu a porta com embaraço e, com os olhos baixos, resmungou: “mandaram-me vir aqui”. Levantou o braço e acrescentou com brusquidão: “isto é para si”, entregando-lhe umas folhas amarfanhadas pela zanga e pela transpiração.  Aceitou, reticente, o convite para se sentar e permaneceu de olhos baixos e semblante cerrado. Nem mesmo para dizer o nome desamarrou a expressão, arremessando um “Natacha” seco e raivoso.

 “Ó Natacha, estou aqui a ler estas participações disciplinares e vejo que te portaste mal em várias aulas. Ora o ano lectivo começou há pouco e já aqui temos um belo molhinho de ocorrências.” A Natacha mirou impassível, com os olhos semicerrados e fez um esgar desdenhoso. “Pois é”, remordeu, abreviando o assunto. “Ao que leio aqui, foste mal-educada na sala de aula, disseste palavrões perante os professores e os colegas e hoje mesmo bateste numa aluna mais nova e ainda insultaste a funcionária que tentou impedir-te. Que me dizes a isto?”

Virou a cabeça com firmeza e apertou os lábios numa linha fina e azeda, mostrando o intuito claro de encerrar as conversações. “Bem, Natacha, já é muito tarde e estamos ambas cansadas, por isso vamos combinar uma hora para conversarmos amanhã, está bem?” E, perante a inutilidade de aguardar anuência, acrescentou de seguida: “amanhã, às quatro, quando acabares as aulas, vens aqui ter comigo ao gabinete. Vai-te lá embora.”

Mais tarde, já no supermercado, deu por si, desnorteada em frente ao expositor dos legumes, a mente ainda apossada de vidas em conflito, à procura de alívios que tardam, de caminhos que tenta abrir à força de teimosia. Sacode a cabeça inconscientemente para afastar os pensamentos e começa a ensacar os alimentos de que necessita.

Vozes alteradas arrancam-na às suas conjecturas. Uma mulher grita: “já te disse que não, parva de m*rda!” “Parva és tu! Nunca fazes nada do que eu te peço, és mesmo estúpida!”, responde-lhe um timbre acriançado. As pessoas imobilizam os gestos e entreolham-se com assombro. As vozes ecoam pelo supermercado, num registo cada vez mais estridente. “Ó filha da p*ta, sai-me da frente, qu’eu ainda cego e enfio-te a garrafa do azeite pelos cornos abaixo! Não me venhas práqui apoquentar, qu’ eu não tenho saúde, vai melgar a p*ta que te pariu!” Do corredor dos enlatados irrompe uma mulher alta e encorpada, seguida de perto por uma outra, mais franzina e muito mais jovem, que brada: “és tu, és tu! A p*ta que me pariu és tu!”

A mulher olha em volta e toma finalmente nota da plateia involuntária no corredor central. Queda-se por instantes, a ponderar se há-de também dizer duas ou três coisas àqueles basbaques. Por fim recua, consumida e impaciente, e vocifera: “olha, sabes que mais, minha estúpida? Vou-me embora e já não compro nada, que não estou para te aturar! Não há bolos, nem jantar, nem o c*r*lho!” E abalou determinada por ali fora, seguida de longe pela Natacha, queixosa e atarefada a refundir no bolso do blusão um pacote de bolachas meio comido. 

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publicado às 17:45

Eliseu d'Angelo Visconti, Estendendo Roupa, c. 194

 

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publicado às 21:39

Mudar (2)

por MC, em 24.10.15

E foi naquele preciso momento que a vergonha acomodada que habitava dentro de si começou a ser aniquilada por uma raiva surda, uma cólera impante e descontrolada que lhe gorgolejava na garganta e a fez gritar um NÃO irremissível (mas imaginário e silencioso, que tinha tido muito trabalho a adormecer o petiz). Nunca mais, pensou, se deixaria apanhar neste escrutínio aviltante, para sempre declinou esta humilhação consentida. E logo um ímpeto reformista a inundou, como a luz regeneradora de uma aparição litúrgica.

Arregaçou as mangas com tenacidade e olhou em volta, à procura de instrumentos para a renovação. Chegou-se à caixa de cartão onde o bebé dormia e com cuidado cortou uma das abas que pendia inutilmente para fora. Procurou um marcador e rabiscou no cartão algumas palavras. Marchou decidida para fora de casa, completou a tarefa e parou de novo, a mirar a obra. Escreveu mais algumas palavras e sorriu satisfeita. Voltou a fechar a porta da rua e suspirou de contentamento. Lá fora, no cartaz improvisado, preso às estrias de alumínio da porta, numa caligrafia infantil e desarticulada, podia ler-se: “Não recebemos assistentes sociais”. Mais abaixo, numa letra mais pequenina e encavalitada, como que para aproveitar o resto do espaço, dizia: “vendedores também não”.

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publicado às 12:51

Mudar (1)

por MC, em 22.10.15

A senhora calcou devagarinho o chão da entrada como quem pisa território inóspito. Mesmo assim, sentiu sob o salto do sapato o estalar do plástico e arredou-se, atrapalhada, puxando todo o seu peso para a planta do pé. Apanhou do chão um pedaço estilhaçado do que lhe pareceu uma perna de boneca. Brinquedos, peças de roupa e calçado e folhetos de hipermercado pejavam o chão do pequeno átrio e coabitavam num puzzle vanguardista com cascas de clementina, um pedaço trincado de pão e dois pacotes de bolachas vazios.

“Não faz mal, não se preocupe”, murmurou a outra, abrindo com o chinelo um pequeno carreiro de passagem sinuosa. Na cozinha, a senhora olhou em volta num movimento hirto de quem não quer bulir numa palha e não conseguiu esconder um trejeito de nojo. “Ó Cátia” exclamou, “pelo amor da santa!” A Cátia encolheu-se, agastada e moída. “Ó doutora, não tenho tido tempo estes dias… os miúdos doentes, a mais velha de muletas…” A doutora susteve-a com o gesto da mão. “Outra vez desculpas, não vale a pena. Todas as vezes que cá vimos lhe dizemos o mesmo, não é, Cátia? Acha que há condições para as crianças viverem aqui? Olhe bem para isto e seja sincera”, rematou, apontando com vaga agonia na direcção do fogão. A bancada assemelhava-se ao chão do mercado depois da venda, com pilhas de loiça suja, embalagens vazias e sobras de coisas indefinidas. No fogão, restos derramados de comida em diversas fases de secagem combinavam com a pelicula untuosa que escorria nos azulejos.  

A Cátia olhava, também ela desgostosa e aflita, o nervoso a roer-lhe o verniz lascado das unhas rentes, os olhos constantemente a escapulir-lhe para a porta. A doutora encolheu os ombros e abanou a cabeça de forma quase imperceptível, como se pretendesse a todo o custo evitar a propagação aérea de um vírus letal. “E agora o que vou eu escrever no relatório para o senhor doutor juiz, Cátia?”, perguntou incomodada. “Olhe, já nem vou ver mais nada, para não piorar a sua situação”, concluiu e iniciou o percurso de retorno.

Encostou-se à porta quando ela saiu e olhou à sua volta com o descaso crónico e dormente que habitualmente lhe toldava a realidade como um filtro. Atentou na profusão de coisas pelo chão, na cozinha caótica e imunda. Um embaraço inesperado e involuntário apressou-a para o quarto, mas também ali não encontrou lugar para o alívio. No espaço exíguo entre a cama de casal e a parede perfilavam-se duas pequenas camas de criança onde coabitavam lençóis revoltos e peluches desmembrados e encardidos. Ao canto, junto da pequena cómoda, numa caixa de cartão forrada com cobertores, um bebé de meses dormia o sono dos justos. Tentou ajustar o olhar à penumbra e mirou-se no espelho fosco. Viu uma mulher jovem de cabelo untuoso e escorrido, a cara ainda ligeiramente inchada do maldoso abcesso que a martirizava há semanas, a blusa verde salpicada de nódoas de papa já secas. Entalada no cós das leggings de padrão leopardo, uma fralda de pano tresandava a leite azedo. 

 

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publicado às 16:46

Estendais antigos

por MC, em 20.10.15

escola santa clara 1930.jpg

Escola Primária, Tribunal Militar, Jardim de Santa Clara, 1930 (tantos anos antes).

(daqui) 

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publicado às 23:52

Círculos

por MC, em 15.10.15

Armou-se de uma energia que não sentia e puxou a porta da rua. A mola velha deu um guincho enferrujado que se sobrepôs, por instantes, ao matraquear pesado da chuva no vidro. Arrepiou-se com a ventania fria da madrugada e puxou para si o abraço do casaco velho de lã. Na rua vazia, o vento fazia girar papéis velhos e folhas caídas numa dança despropositada. Caminhou apressada em direcção à paragem de autocarro e sentou-se encolhida, ombros escudados no canto do cubículo, os pés molhados da chuva cuspida pelo vento.

Esfregou uma na outra as mãos maltratadas de unhas roídas e mirou-as como se as vislumbrasse pela primeira vez. Com o calor da fricção, o tom arroxeado da pele tornava-se, sob a luz esmorecida do candeeiro, num escarlate vivo que realçava a teia profusa de cicatrizes feias e brancas como fantasmas.

Lembrou-se do dia aziago em que, pequenita e franzina, entornara sobre si uma panela de sopa acabada de fazer, lembrou-se do muito que gritou, sozinha em casa, com os braços e as pernas a fervilhar de bolhas e dores insuportáveis, recordou-se de se ter arrastado até à porta da rua, com as roupas literalmente coladas a si, de os gritos se terem progressivamente transformado num choro sofrido e baixinho, das vozes dos vizinhos no patamar, do bombeiro alto e garboso como um príncipe que pegou nela como quem segura um tesouro e a levou para o alívio nebuloso do sono.  

Lembrou-se dos tantos e tantos dias de perpétua solidão que passou naquela casa, enquanto a mãe rodopiava no carrocel desnorteado da sua vida sentimental, cada uma delas presa em universos que pontualmente se interceptavam em segmentos momentâneos e fugazes. Reviu a convivência tantas vezes forçada e incompreendida com os amores da mãe, homens imoderados, coléricos, promíscuos, alguns gentis, nenhum constante, ninguém ficou.

Recordou todas as vezes em que, amargurada e infeliz, prometia a si própria que aquele não seria o seu caminho, que iria fazer da sua casa um lugar fagueiro e festivo, um casulo almofadado onde os seus amores pudessem aninhar-se e espreguiçar, agasalhados dos rigores do mundo para todo o sempre, ámen.

Evocou a imagem doce dos seus pequeninos, rechonchudos e macios, a dormir o sono dos justos. Amarfanhou-se-lhe o coração ao sabê-los sozinhos em plena madrugada, a aflição a martelar-lhe nos ouvidos, a culpa a calcar-lhe o peito, a necessidade a empurrá-la para a frente. São só algumas horas, não parou de repetir para si própria. Quando voltar das limpezas ainda eles estão a dormir, a vizinha Alzira está logo ali, os ouvidos de tísica atentos ao zoar de uma mosca. Todos os “nunca mais” tantas vezes juramentados com raiva e determinação orbitam maldosamente na sua cabeça.

Afasta-os com um gesto distraído do braço, à medida que sobe para o autocarro. O motorista sorri timidamente e deseja-lhe um bom dia claro e sincero. É bem-apessoado, limpo, as calças bem engomadas, um ar sério que lhe lembra o bombeiro-príncipe que a salvou e que para sempre morará no seu coração. Ofereceu-lhe de volta um sorriso triste e sentou-se lá atrás, os pés eternamente gelados, a solidão a ensopar-lhe os ossos.   

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publicado às 16:58

Light Winds, Jeffrey T. Larson

por MC, em 13.10.15

Light Winds.png

 

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publicado às 00:00

Jénifer

por MC, em 08.10.15

Olá, eu sou a Jénifer Jaqueline, tenho dezasseis anos e vou repetir o oitavo ano.

Calha bem que a setora dt mandou a gente escrevermos a nossa opinião logo na primeira aula que eu assim digo já que não gosto nada da escola mas sou obrigada a tar cá por causa que o tribunal deu à minha mãe um ultimo ato isto é uma palavra fina que quer dizer que não há mais nada a fazer, se eu voltar a faltar às aulas ou fazer aquelas cenas fo maradas como no ano passado vou ser recambiada para uma casa com grades para pessoas de linguentes, que foi a doutora no tribunal que disse e eu não sei mesmo o que são linguentes mas não quero sair da minha casa apesar de secalhar lá as pessoas serem mais carinhosas que o Boi Sentado, que é alcunha que eu pus ao meu padrasto mas ele não sabe.

Bem mas como eu ia dizendo eu não gosto da escola e ando ácanos sempre a ouvir os setores repetir as mesmas porras os setores até são tipo bacanos só que eles ficam todos grisados quando falam nas cenas lá deles e depois enxofram-se se percebem que a gente não tamos a curtir nada daquilo dá a ideia que eles gramam mesmo daquelas mer coisas e acham importante saber de assuntos que não lembram ao careca.

Ora se os egipcios já morreram todos à bués e portanto já nem hesistem o que é que interessa à pessoa saber que eles se disfarçavam de múmias quando viam a morte a chegar e que os tratores deles eram puxados por escravos fabricados em africa porque ainda não existia gasolina? E que eles faziam aqueles triângulos com peças de lego mas em pedra e depois de tudo ainda os arrastavam para o alto dos montes de areia?

E saber nomes de bacanos tipo o Camões e o Salazar e o Hitler mais a sua barbie nazi que são conhecidos só por estarem na wikipédia e a fundação do Titanic que deu inicio à idade do gelo nas carlotas polares e o clima montanhoso de Trás-dos-Montes e o habitat da cavala que é um peixe mamífero encontrado em abundância nos nossos rios e que uma tonelada pesa pelo menos 100Kg se estiver em estado liquido e que ainda há indios selvagens em certas partes do universo e do mundo em geral e os índios são muito atrasados mas com o tempo vão-se sifilizando e muitos até têm telefones e constipações e o car camandro?

Enfim, mer  tretas que não interessam ao menino jesus. A bem dizer, só há duas coisas que eu quero mesmo mesmo munto e uma é sair por aquela porta e dar de frosques e nunca mais cá voltar e a outra é ser cantora e bailarina, cantar e dançar no palco nas noites de arraial ter roupas estilosas com lã de jolas e ser tipo a shakira portuguesa e dar na televisão aos domingos e assim não era preciso a minha mãe telefonar para adivinhar um número e ganhar prémios porque eu assim podia comprar tudo isso e farturas e sandes de coiratos e gomas e rifas para a vó Bina.

Lá em casa todos dizem que sim senhora e que até tenho bom nome para ser artista mas tenho de esperar e andar na escola até aos dezoito anos e parar de me armar em atrasada mental e a minha mãe no dia do baile dos bombeiros já tava um bocado fosquinada de beber umas litrosas a mais e acabou por dizer que se eu para-se de me armar em retardada até tinha cabecinha para a escola e que ainda tava para saber como é que uma estupida como eu conseguia escrever tão bem sem dar erros. Pimbas.

Ass: Jénifer Jaqueline

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publicado às 17:23

Thanksgiving

por MC, em 06.10.15

Nascida de uma mãe camponesa iletrada, maciça e resistente como um carvalho beirão e de um pai transmontano, nado e criado nos rigores das fragas e da míngua, habituado a palmilhar as serras para chegar à escola, dormente de frio e cansaço, escassa seria a probabilidade de ter trazido as letras dentro de mim. 

Esta afirmação mais não é do que a constatação de uma circunstância inusitada ou improvável. Não contém um pingo de melindre ou de queixume. Pelo contrário, nasci numa época extraordinária e tive acesso à mais generosa das instruções: ensinaram-me a ler e mostraram-me a existência de livros.

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publicado às 23:26

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Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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